Osterkamp

O preconceito do movimento

“O seu filho tem um jeito estranho né?”
“Nossa, como que tu deixa tua filha sentar desse jeito? Que feio.”
“Meu filho queria fazer dança, disse que ou jogava futebol ou apanhava, tá jogando.”
“Amiga, teu namorado gosta mais de dançar que tu, estranho isso.”
“Mulher não pode treinar braços, fica muito masculina.”
“Tua mulher tá num time de futebol e tu não? Quem que veste as calças em casa?”
“Fazendo agachamento de novo cara? Tá querendo usar?”

Se isso parece coisa de novela, saiba que não é. No período em que vivemos é visível que o preconceito ainda faz grande parte de nossas vidas, além de ser algo abominável, é fisicamente perceptível como viver seguindo uma visão bitolada de movimento e gênero faz mal para nossa saúde.

Dentro de nossas rotinas pesadas, achar um tempo para fazer um exercício ou esporte que nos dê prazer e resistência é de suma importância, e embora nos últimos 10 para 20 anos eu pude perceber uma diminuição do preconceito nessas horas, ainda existe uma visão forte sobre o que um homem pode ou não pode fazer e também sobre o que uma mulher pode ou não fazer com seu corpo.

E isso é um absurdo, além de não ser natural.

É óbvio que somos fisicamente diferentes, com estruturas ósseas, cargas hormonais e até mesmo capacidade muscular diferentes, porém somos feitos para ter a capacidade de executar tarefas similares com adaptações à nossas necessidades, traduzindo: Correr, saltar, carregar pesos, chutar uma bola, dar uma raquetada, pedalar uma bicicleta, e rebolar até o chão são todas funções que homens e mulheres podem fazer sem nenhum problema.

Gosto de salientar que nosso corpo é tão capaz quanto de se expressar fisicamente quanto verbalmente, algo aonde falo mais sobre isso é nesse vídeo:

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Mas o próprio preconceito aparece quando fui questionado sobre esse vídeo, sobre o que eu queria dizer com ele, e também se era uma maneira de eu dizer algo sobre mim em referência ao velho “sair do armário”.

É triste pensar o quanto ainda hoje em dia julgamos movimentos como uma definição do que uma pessoa é ou não. Se esse movimento viesse da escolha do indivíduo, tudo bem, mas não, ele vem de uma opinião da sociedade, o que você pode ou não pode.

Essa minha birra começou faz um tempo, aonde nesse vídeo abaixo eu comecei a brigar com o jeito que eu estava vendo as mulheres sentar, e com uma relação sutil entre a maneira de se mexer, e também com a incidência de dores em joelhos.

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É algo que vejo já faz alguns anos, mas que começou a me incomodar mais e mais quando percebi que mulheres jovens estavam entrando nessa mesma neura do movimento sem nem mesmo perceber, o movimento se tornou algo herdado, sem motivo ou explicação, elas (e eles também em outros cenários) viam seus exemplos de feminilidade se movendo dessa maneira, e imitavam como se fosse o certo.

Por esse motivo inicial de seguir as figuras de exemplo, que a comunidade homossexual demonstra muito maior liberdade de movimento, não existe a necessidade de “parecer hétero”, e o movimento pode ser diferente do que a sociedade demonstra como o normal, porém de novo em outros extremos as vezes surge o: “Ué? Tu não é gay? Porque está caminhando que nem macho?”

Eu fico irritado quando vejo uma “regra” gerar desconforto ou dor em alguém. Seja qualquer sua tribo, visão, identidade, movimento é movimento, o movimento que lhe faz bem deve ser defendido, o que lhe ofende, lhe oprime, lhe proíbe de ser quem você é, esse deve ser coibido.

Por isso, comecei a me obrigar a tomar mudanças.

Afinal, falar é fácil, se não sou eu rebolando na frente das câmeras e dizendo o que vocês devem fazer enquanto eu não faço né?

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Porque isso é importante pra mim, e consequentemente pra vocês?

Movimento é linguagem, movimento é música, movimento é tinta em um quadro, movimento é liberdade, movimento é escolha, movimento é munição.

Imagine falar sem usar a letra b, cantar sem usar a nota Dó, pintar sem amarelo, se mover com proibição. Quem já quebrou ou torceu ou se machucou sabe como é se mover com menos escolhas, algumas pessoas com condições diferentes passam por esse proibição de maneira constante, e se adaptam, mas porque você que pode se mover não o faz?

O seu corpo é capaz de muito mais, nem sempre é fácil, mas mover é uma escolha entre se permitir ou não, e o movimento só tem potencial à lhe adicionar, nunca a perder.

Mova-se.

Assinatura William Osterkamp Reabilitando Limites

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O corpo humano não se acostuma em ficar parado. Independentemente de sua limitação, nosso corpo é feito para se movimentar. Tornar isso possível é o trabalho da Osterkamp.

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